Proibir ou enfrentar? O desafio do celular.

Mariana Ochs
6 min readFeb 19, 2024

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Trancar os celulares dos jovens a sete chaves é varrer um problema para debaixo do tapete. Como a comunidade de tecnologia educacional e educação midiática pode ajudar a enfrentar esse desafio?

Ilustração: Mariana Ochs com Dall-e

Sem fazer pouco da importância de tratarmos do bem-estar digital, de regular as redes sociais e de demandar tecnologias mais transparentes e livres de funcionalidades nocivas, é preocupante a escalada das medidas muito amplas e excessivamente restritivas quanto ao uso de dispositivos em ambiente escolar. A notícia recente sobre escolas que adotaram pochetes trancadas a chave para os celulares provoca a reflexão sobre qual o limite e a forma de monitorar o uso dos equipamentos — essa medida, em particular, tem contornos policialescos e é, a meu ver, uma resposta mais teatral do que eficaz à ansiedade das famílias. É claro que não queremos telas no lugar de interação no recreio, nem tirando o foco das aulas. Mas retirar os aparelhos de circulação não resolve a principal questão: educar para o seu uso consciente.

É preciso enfrentar os problemas que os dispositivos trazem, desde seus aspectos viciantes até o conteúdo negativo a que os jovens são expostos. E é justamente na escola que temos a melhor oportunidade de interrogar as tecnologias de forma mediada e exploratória, construindo coletivamente o conhecimento crítico sobre como funcionam e seus efeitos na sociedade — e, mais do que isso, entendendo que podemos propor outras formas de relacionamento com e através das tecnologias, e até mesmo funcionalidades mais desejáveis. É em situações educativas que temos a possibilidade de modelar um engajamento seguro e saudável com a tecnologia, mobilizada para o bem coletivo e para transformações positivas no mundo.

O preço a pagar por não criarmos essas oportunidades formativas pode ser bem alto: adolescentes que não sabem como pesquisar online e selecionar informação de qualidade, não questionam os efeitos das tecnologias sobre seu comportamento e não aprendem a auto regulação; jovens que não conseguem identificar comportamentos tóxicos e violações de direitos na internet, ou que são cooptados por movimentos extremistas; adultos que acreditam em teorias conspiratórias, adotam posturas negacionistas e ameaçam as instituições democráticas. Da mesma forma que as escolas podem se transformar em ambientes de isolamento pelo uso excessivo de telas em detrimento de situações de socialização ou aprendizado, também podemos gerar exclusão ou conflitos por falta de letramento digital e midiático consistente, sem o qual não podemos mitigar os riscos da tecnologia e estimular o seu uso responsável, fortalecedor e inclusivo. A educação tem o papel fundamental de orientar a entrada dos jovens no mundo da comunicação digital, sobretudo ao examinar as dinâmicas visíveis e invisíveis daqueles dispositivos e ambientes que eles mais usam.

A entrada desses temas e práticas no currículo, é claro, deve acontecer sempre com duração, forma e propósito adequados ao estágio de desenvolvimento dos estudantes — mas precisa acontecer, de forma constante e progressivamente mais complexa, desde que eles comecem a ter acesso aos celulares. Um jovem impedido de examinar o contexto irreversivelmente digital e midiático em que vive não terá, uma vez fora da escola, os instrumentos para navegá-lo de forma segura; será, do ponto de vista da autonomia digital, ingênuo e vulnerável. Podemos fazer um paralelo com chegada do automóvel e, consequentemente, dos acidentes de trânsito: não buscamos eliminar os acidentes proibindo os carros de circularem, mas sim com uma série de medidas em várias frentes — legislação de trânsito, sinalização nas ruas, adaptação dos espaços urbanos, adaptações de segurança no design dos próprios carros e, é claro, instruções para os pedestres e escolas para motoristas.

Sendo assim, deixo aqui 5 bons motivos para o uso intencional e mediado dos celulares e redes sociais na escola:

  1. Aprender a fazer pesquisas mais qualificadas: Há cada vez mais evidências de que os jovens estão preferindo fazer pesquisas no TikTok ou no Chat GPT, ao invés de procurar no buscador. Além do problema óbvio de que isso potencialmente os expõe a informações falsas, infundadas ou de baixa qualidade, há uma outra consequência grave: a de distanciá-los cada vez mais da fonte das informações, normalizando essa invisibilização, ocultando a necessidade de avaliar e comparar fontes e em geral fomentando uma postura pouco crítica. Explorar e comparar os ambientes que eles utilizam nos permite demonstrar o melhor uso de cada um. Sobretudo, é preciso conhecer as possibilidades e limitações das novas ferramentas que vão surgindo para poder fazer uso adequado delas; o Chat GPT, por exemplo, gera textos extremamente coerentes e convincentes, mas que podem ser imprecisos, e pode até fornecer referências perfeitamente formatadas quando solicitado — mas em geral serão inventadas.
  2. Aprender a avaliar a informação: Se o celular é o principal ponto de contato dos jovens com a informação, é preciso saber destrinchar a cacofonia de vozes que ele nos traz. Discutir sobre a veracidade das informações, confiabilidade das fontes e agendas de quem publica não se restringe ao ambiente das notícias, mas também se aplica ao universo dos influenciadores, da publicidade (explícita ou velada) e da propaganda, aquele tipo de mensagem que busca mobilizar e influenciar comportamentos. Ao navegar pelas redes sociais ou trocar memes no whatsapp, os jovens devem entender, por exemplo, que a popularidade de alguém não necessariamente lhe confere a autoridade de um especialista; e reconhecer a necessidade de pausar e verificar a informação antes de repostar algo que foi propositalmente elaborado para causar indignação.
  3. Conhecer o funcionamento dos ambientes algorítmicos: Além de avaliar as informações, é preciso entender também porque vemos o que vemos na internet. Isso significa reconhecer e problematizar o funcionamento das decisões algorítmicas que regem o nosso acesso à informação e nossas interações uns com os outros. A personalização de conteúdo através dos mecanismos de seleção e recomendação, por exemplo, parece algo bastante útil e inofensivo — mas, em certos casos, pode ocultar a diversidade ou segregar os usuários em bolhas de pensamento único, criando visões antagônicas da realidade e polarização. Especialmente perigoso, no caso de adolescentes, é o consumo e compartilhamento de conteúdos nocivos, o que leva o sistema a oferecer mais do mesmo e pode direcioná-los para ambientes tóxicos e violentos. Reconhecer a ação desses algoritmos é o primeiro passo para que os jovens possam se defender desses efeitos proativamente.
  4. Observar as relações de poder por trás da tecnologia: os sistemas tecnológicos são criados para atender a interesses humanos e tendem a reproduzir as assimetrias de poder de seu contexto. É o caso, por exemplo, de IAs treinadas com dados pouco representativos da diversidade presente na sociedade. Os jovens devem aprender a questionar as imagens e conteúdos gerados por essas tecnologias, que podem conter estereótipos ou mesmo silenciar determinadas visões de mundo, amplificando preconceitos e exclusões. Já as interfaces das redes sociais são criadas para promover um maior tempo de engajamento — e cabe discutir a que interesses isso serve. Mesmo os planos de celular mais acessíveis, que incluem a navegação em algumas redes sociais, acabam por aprofundar a exclusão digital já que não permitem o acesso à internet de forma irrestrita, submetendo o usuário às informações selecionadas pelo ambiente algorítmico das plataformas.
  5. Praticar o uso positivo: Além de condenar o bullying e as agressões, podemos ajudar os jovens a identificar os aspectos positivos da internet, e direcionar o seu uso para isso. Não devemos subestimar o poder de conexão das redes sociais, que muitas vezes ajudam os jovens a ampliar os seus círculos e encontrar pertencimento em comunidades de interesse. Muito importante para os adolescentes, também, tem sido a circulação de conteúdo positivo afirmando identidades raciais, expondo a diversidade de corpos e de gênero, e de modo geral ampliando perspectivas e promovendo a visão de uma sociedade mais plural, o que combate a depressão associada à exclusão. Também podemos modelar o uso crítico e criativo das ferramentas e ambientes de publicação, dando voz aos jovens para que atuem sobre as causas que lhes são caras.

As dificuldades que vivemos hoje com o uso inadequado desses dispositivos decorrem, em grande parte, do descompasso entre o desenvolvimento acelerado da tecnologia e a morosidade da resposta social aos seus efeitos — entre elas a educativa. Em breve, sem dúvida alguma, veremos acentuarem-se os esforços regulatórios e os movimentos das próprias empresas de tecnologia, que precisarão adequar o design de seus produtos às demandas sociais. De nossa parte, cabe fortalecer os educadores e as famílias para que juntos possamos conduzir os jovens a um uso mais saudável desses ambientes.

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Mariana Ochs

Designer, educator, Google Innovator. Coordinator of EducaMídia. Exploring design, media and technology in education, and empowering youth in the digital age.