Imagens e representação: promovendo um olhar antirracista para as mídias

A educação que promove um olhar atento para as mídias ajuda a identificar e combater o racismo estrutural.

Texto publicado em 24/11/2022 como parte da série de artigos do EducaMídia na Folha de SP que busca trazer conceitos de educação midiática para professores de educação básica.

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A Lei nº 10.639 de 2003, que incluiu no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira”, está prestes a completar vinte anos. Criada para se opor a uma perspectiva de ensino em que a experiência dos negros era discutida apenas no contexto da escravidão, a lei busca valorizar a história da África e dos africanos, reafirmar o papel essencial da cultura negra e do negro na constituição da sociedade brasileira e iluminar sua atuação nas artes, literatura, ciência e política, bem como nas diversas resistências.

É inegável que essa legislação tem um papel importante no combate ao apagamento da história dos negros no Brasil, sobretudo ao criar uma demanda por currículos, recursos e livros, com reflexo em toda a cadeia produtiva de materiais didáticos, paradidáticos e de provas. Embora a implementação da lei ainda enfrente diversas dificuldades, hoje temos uma oferta bem maior de literatura e estudos do ponto de vista da população negra, e uma possibilidade ampliada de buscar olhares múltiplos.

Mas o enfrentamento a esse problema tão persistente e danoso em nossa sociedade precisa ser feito de forma transversal, por meio de um conjunto de ações continuadas. Não há como negar, por exemplo, que as ações afirmativas de inclusão no ensino superior, no mesmo período, aumentaram significativamente a presença e a visibilidade de intelectuais e cientistas negros no cenário nacional, ampliando a diversidade de vozes e pautas da academia à imprensa, e combatendo a narrativa única — e tudo isso se reflete na educação.

A educação midiática é uma peça importante nesse cenário. Para desconstruir sistemas de exclusão há muito arraigados em nossa sociedade, a educação antirracista precisa ir além da perspectiva curricular e dos conteúdos específicos de arte, literatura e história brasileira, como determinou a lei. Corrigir as injustiças sistêmicas significa também questionar a lógica racista que determina a posição de cada um nas funções sociais — inclusive nas equipes pedagógicas e administrativas das escolas — e entender o papel das mídias na construção e perpetuação dessas lógicas.

As injustiças que estão presentes há tempos em nossa sociedade muitas vezes são criadas ou reforçadas por representações nas mídias. Nossa visão de mundo é impactada pela forma como os negros e outros grupos minorizados são representados — quando são representados — nos filmes, jogos e publicidade que consumimos, pelas imagens que as mídias reproduzem, pelas escolhas linguísticas que são feitas nas manchetes e matérias jornalísticas. Imagens estereotipadas ou preconceituosas reafirmam visões racistas, enquanto que ausências (de representação ou de vozes diversas) reforçam estruturas excludentes.

Mesmo crianças pequenas estão expostas a imagens que refletem as estruturas sociais — nas embalagens de brinquedos e alimentos, nas aberturas de programas. É importante ensinar os jovens a perceber, nos conteúdos que consomem, se todos os grupos que compõem a nossa sociedade estão sendo representados de maneira complexa, de forma a valorizar sua individualidade e naturalizar sua existência em situações de realização pessoal e prestígio; e observar se todos têm espaço para oferecer as suas narrativas e falar sobre as suas realidades.

E essa relação não é só de consumo. Também precisamos olhar para as mídias, sobretudo as digitais, como espaço democrático de expressão, capazes de aglutinar anseios sociais e dar voz a demandas marginalizadas. Ao ganhar a internet, o movimento de direitos civis #VidasNegrasImportam adquiriu escala global e abriu caminho para que a indústria do entretenimento aceitasse realizar um filme como Pantera Negra, que não só tem uma narrativa afro-centrada mas que também mostra mulheres negras como super heroínas. O sucesso de mercado dessa produção acaba por viabilizar outras iniciativas que abrem portas, e que por sua vez estimulam meninos e meninas a olharem de forma mais fortalecida para seu futuro e possibilidades. Quando uma menina negra celebra a sua imagem refletida nas apresentadoras dos telejornais, a viralização dessas cenas carrega o seu impacto transformador para muitas casas e vidas, afirmando as possibilidades de ocupação de espaços. Desenvolver as habilidades comunicativas dos jovens, mostrando a eles como ocupar as mídias com ética e responsabilidade, é dar asas aos seus anseios e sonhos.

A justiça social, racial e ambiental passa pela ocupação crítica e consciente das teias de comunicação que amparam nossas relações sociais. É direito de todo estudante acessar informações com confiança, filtrar o que é adequado, reconhecer discriminação e discurso de ódio e juntar sua voz ao diálogo da sociedade, atuando nas causas que lhe são caras. Ao propor um olhar reflexivo para as mídias desde a infância, e mediar uma participação ativa e fortalecedora nos ambientes de comunicação, a educação midiática ajuda a construir as bases para uma sociedade mais justa, e isso não deve ser privilégio de poucos. É nosso dever garantir que ela chegue a todos os contextos educativos.

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Ouça a entrevista para a Radio Senado sobre esse tema.

Mariana Ochs é coordenadora do EducaMídia, programa de educação midiática do Instituto Palavra Aberta

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Designer, educator, Google Innovator. Coordinator of EducaMídia. Exploring design, media and technology in education, and empowering youth in the digital age.

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Mariana Ochs

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