Educação e cultura digital

A representation of Rodin’s sculpture Thinker wearing Golden VR Glasses On Pink Background
Adobe Stock

Um contexto em transformação

Há algum tempo nos acostumamos a chamar a atual geração de jovens de “nativos digitais”, uma vez que nasceram e crescem em um contexto em que telas e plataformas medeiam grande parte das interações. Essa expressão por vezes nos leva a crer que os jovens dominam essas tecnologias de forma intuitiva, dado que são capazes de descobrir facilmente o funcionamento de ambientes e aparelhos. Mas isso não significa que eles dominem as habilidades necessárias para avaliar criticamente o conteúdo ou mesmo as práticas sociais de interação nesses ambientes. Segundo dados recentes do Pisa, 2/3 dos jovens brasileiros não sabem distinguir uma matéria jornalística de um artigo de opinião [1]; outra pesquisa mostra que a maioria dos jovens prefere buscar informação em ambientes visuais e sociais, como o TikTok, do que nos buscadores como o Google [2], o que significa que estão consumindo primariamente informação vinda de criadores e empresas, sem a mediação de jornalistas ou especialistas. Se os jovens não sabem avaliar adequadamente a confiabilidade ou relevância das informações encontradas ou mesmo questionar a sua procedência, seria mais correto, então, chamá-los de “inocentes digitais”, reconhecendo que a educação para a informação está defasada em relação às mudanças tecnológicas (e o cenário, infelizmente, é praticamente o mesmo para os adultos, sejam eles famílias ou educadores).

Como aprendemos?

Se o conhecimento está em toda parte, mas nem sempre é confiável, como aprendemos? Se os jovens da chamada “geração C” estão plenamente inseridos em uma cultura de colaboração, comunicação, criação e compartilhamento, como ensinamos? Abraçar a cultura digital na educação nos permite sair do livro didático e ir além dos muros da escola, conectando-nos com as questões reais do nosso mundo a partir de textos autênticos em mídias diversas ou do contato com especialistas e personagens. Nos possibilita dar aos alunos a oportunidade de explorar um assunto por vários ângulos e formular perguntas — e a partir delas investigar, fazer curadoria de conteúdos, recortar e sintetizar temas do seu interesse, criando novos artefatos e narrativas em mídias diversas que podem ser ofertados a uma audiência real. São essas práticas centradas no aluno que constroem a autonomia e as habilidades socioemocionais, estimulando a criatividade crítica e praticando o “aprender a aprender”, tão importante para a vida no século 21.

Para que aprendemos?

O pesquisador norte-americano Marc Prensky já escrevia em 2016 [5] que a ideia de preparar o aluno para ser um bom aluno, isto é, dominar conhecimentos específicos para passar em provas, está ultrapassada. Frente aos problemas complexos do nosso tempo, precisamos ensinar os jovens a trabalhar de forma multidisciplinar e colaborativa, acionando as competências socioemocionais e também as habilidades tecnológicas e midiáticas a fim de resolver problemas reais, e buscando os conhecimentos necessários para os desafios que se apresentam. Prensky argumenta que podemos engajar as crianças, desde pequenas, em projetos com impacto real e mensurável em suas comunidades.

Quais os impactos da tecnologia que usamos ?

A evolução tecnológica provoca mudanças significativas de comportamento. Textos digitais, por exemplo, comportam novas possibilidades de leitura e escrita, que por sua vez mobilizam novas formas de interação. É o caso do remix e da escrita colaborativa, conteúdos interativos ou imersivos, e até conteúdos fabricados por inteligências artificiais. A ação dos algoritmos afeta a personalização de conteúdos, e esta, a nossa compreensão da realidade. No ambiente escolar, no entanto, a prática da compreensão crítica das mídias ainda parece ter um foco quase exclusivo na instrução para pesquisar e avaliar a credibilidade do conteúdo baseado em texto, sem prestar atenção suficiente ao impacto das tecnologias em rápido desenvolvimento, que determinam tanto a natureza dos textos que lemos quanto o que de fato é oferecido para nosso consumo e interação.

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Designer, educator, Google Innovator. Coordinator of EducaMídia. Exploring design, media and technology in education, and empowering youth in the digital age.

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Mariana Ochs

Mariana Ochs

Designer, educator, Google Innovator. Coordinator of EducaMídia. Exploring design, media and technology in education, and empowering youth in the digital age.