Educação e cultura digital

É hora de abandonarmos de vez a noção de tecnologia como ferramenta em favor de uma postura mais ativa, reflexiva e questionadora frente aos ambientes digitais.

A representation of Rodin’s sculpture Thinker wearing Golden VR Glasses On Pink Background
Adobe Stock

Pergunte a diversos atores envolvidos no processo educativo o que significa levar a cultura digital para a escola, e as respostas serão as mais variadas. Alguns dirão que precisamos integrar o uso de equipamentos e softwares à prática pedagógica, de forma a promover a fluência tecnológica necessária em uma sociedade em que o digital, cada vez mais, permeia nossas relações de trabalho, de aprendizado e até mesmo sociais. Outros dirão que é preciso, frente ao avanço das redes sociais e ambientes de interação, promover a cidadania digital, para que os alunos aprendam a cuidar proativamente de sua segurança, privacidade e da qualidade da comunicação em suas comunidades. Outros, ainda, defenderão que é preciso familiarizar o jovem com o pensamento computacional, as linguagens de programação e equipamentos de fabricação, de modo que eles possam sair da condição de consumidores passivos de tecnologia e dedicar-se à resolução de problemas através de seu uso criativo.

Nenhuma dessas opções está errada, é claro. O avanço vertiginoso da tecnologia em nossa sociedade, bem como a democratização das ferramentas de comunicação, criação e publicação, expõe os jovens aos ambientes e práticas digitais em diversos contextos — mesmo quando a tecnologia não está presente na escola. Porém, enquanto tratarmos a fluência digital apenas como vantagem adicional, ou opção inovadora para práticas criativas na escola, não perceberemos o essencial: no atual contexto, dominar de forma criativa e crítica as ferramentas digitais de criação e comunicação é condição básica para equidade e inserção em uma sociedade cada vez mais conectada. Ser fluente digital e midiaticamente é um direito, e nesse sentido precisamos mudar a lente pela qual olhamos a integração de tecnologia na educação. Não se trata de levar a cultura digital para a escola, ampliando os currículos com ofertas adicionais, mas sim de abrir a escola para a cultura digital, reconhecendo as novas formas de aprender e interagir, e desenvolvendo essas habilidades de forma transversal e continuada.

Um contexto em transformação

Há algum tempo nos acostumamos a chamar a atual geração de jovens de “nativos digitais”, uma vez que nasceram e crescem em um contexto em que telas e plataformas medeiam grande parte das interações. Essa expressão por vezes nos leva a crer que os jovens dominam essas tecnologias de forma intuitiva, dado que são capazes de descobrir facilmente o funcionamento de ambientes e aparelhos. Mas isso não significa que eles dominem as habilidades necessárias para avaliar criticamente o conteúdo ou mesmo as práticas sociais de interação nesses ambientes. Segundo dados recentes do Pisa, 2/3 dos jovens brasileiros não sabem distinguir uma matéria jornalística de um artigo de opinião [1]; outra pesquisa mostra que a maioria dos jovens prefere buscar informação em ambientes visuais e sociais, como o TikTok, do que nos buscadores como o Google [2], o que significa que estão consumindo primariamente informação vinda de criadores e empresas, sem a mediação de jornalistas ou especialistas. Se os jovens não sabem avaliar adequadamente a confiabilidade ou relevância das informações encontradas ou mesmo questionar a sua procedência, seria mais correto, então, chamá-los de “inocentes digitais”, reconhecendo que a educação para a informação está defasada em relação às mudanças tecnológicas (e o cenário, infelizmente, é praticamente o mesmo para os adultos, sejam eles famílias ou educadores).

E como essa transformação impacta o contexto educativo? É fato que a abundância de informações ao alcance de nossos celulares democratiza o aprendizado, subvertendo as relações hierárquicas há tanto presentes nas escolas. Por outro lado, os desafios à construção do conhecimento são imensos. A profusão de autores nos ambientes digitais, agindo com propósitos diversos, nos expõe a desinformação, boatos, informação enviesada ou fabricada, mensagens com propósito de manipular, convencer ou vender, discurso de ódio, preconceito e tantos outros obstáculos. Os algoritmos personalizam o que vamos receber, oferecendo recortes da realidade que podem direcionar comportamentos. Para além da falta de acesso, o desconhecimento das linguagens e ambientes digitais exclui grupos inteiros da possibilidade de construir suas próprias narrativas. Se reconhecermos o nosso direito fundamental a informações confiáveis e de qualidade, de modo que possamos aprender e tomar decisões que impactam nossa vida pública e privada, e o nosso direito a participar das conversas e decisões da sociedade, podemos perceber que a verdadeira inclusão digital não está apenas em garantir o acesso à internet. Ela reside, sobretudo, no desenvolvimento de habilidades que garantam a qualidade da experiência no ambiente informacional, bem como a possibilidade de participação positiva e autoexpressão ética.

Por trás de políticas públicas como a BNCC, que contempla a cultura digital de forma direta ou indireta em diversas competências transversais e habilidades específicas, ou o Projeto de Lei da Educação Digital aprovado recentemente na Câmara dos Deputados [3], está o reconhecimento de que o desenvolvimento das competências digitais não é apenas essencial para inclusão no mercado de trabalho, mas também uma questão de equidade, cidadania e justiça social. A tecnologia não é apenas ferramenta, mas sim uma linguagem a ser compreendida; a internet é um território a ser ocupado de forma responsável e consciente.

Nesse cenário, considero que são três as perguntas fundamentais que podem orientar nossa compreensão do papel da tecnologia na educação.

Como aprendemos?

Se o conhecimento está em toda parte, mas nem sempre é confiável, como aprendemos? Se os jovens da chamada “geração C” estão plenamente inseridos em uma cultura de colaboração, comunicação, criação e compartilhamento, como ensinamos? Abraçar a cultura digital na educação nos permite sair do livro didático e ir além dos muros da escola, conectando-nos com as questões reais do nosso mundo a partir de textos autênticos em mídias diversas ou do contato com especialistas e personagens. Nos possibilita dar aos alunos a oportunidade de explorar um assunto por vários ângulos e formular perguntas — e a partir delas investigar, fazer curadoria de conteúdos, recortar e sintetizar temas do seu interesse, criando novos artefatos e narrativas em mídias diversas que podem ser ofertados a uma audiência real. São essas práticas centradas no aluno que constroem a autonomia e as habilidades socioemocionais, estimulando a criatividade crítica e praticando o “aprender a aprender”, tão importante para a vida no século 21.

Isso requer atenção a um novo tipo de letramento. A onipresença de telas e espaços online em nossas vidas, com a crescente mediação de algoritmos, de fato tornou os aspectos de interação e navegação da fluência digital mais confortáveis e familiares, mas também tornou as coisas mais desafiadoras em termos de identificação de origem, autoria e intenção de mensagens digitais, e a construção de conhecimento mais repleta de desvios e armadilhas. A educação midiática, quando integrada transversalmente ao currículo, e praticada ao longo de toda a escolarização, desenvolve as habilidades de ler, escrever e participar da sociedade conectada [4], formando leitores e produtores de conteúdo mais conscientes, que interagem de forma mais reflexiva e intencional com o universo informacional da sociedade.

Na prática, isso significa apoiar as habilidades investigativas e explorar o funcionamento dos ambientes de busca; selecionar textos disparadores em diferentes formatos narrativos, discutindo sua pertinência e confiabilidade — e, em seguida, transferir gradualmente essa responsabilidade para os próprios alunos. É questionar o propósito das mensagens, observando também pontos de vista, quais vozes estão representadas ou omitidas, e a natureza da representação. Alunos e professores estabelecem um novo tipo de relação, menos hierárquica e mais colaborativa, construindo juntos os objetivos a serem alcançados, quanto ao conteúdo e quanto ao desenvolvimento do projeto e execução do produto. Longe de ser dispensável, o professor, na condição de mediador desse percurso, precisa abraçar a condução de projetos criativos cujo resultado não é conhecido de antemão — mas ao mesmo tempo oferecer as estruturas e suporte necessários para que o aluno atinja os objetivos curriculares e demonstre o desenvolvimento das habilidades midiáticas.

Para que aprendemos?

O pesquisador norte-americano Marc Prensky já escrevia em 2016 [5] que a ideia de preparar o aluno para ser um bom aluno, isto é, dominar conhecimentos específicos para passar em provas, está ultrapassada. Frente aos problemas complexos do nosso tempo, precisamos ensinar os jovens a trabalhar de forma multidisciplinar e colaborativa, acionando as competências socioemocionais e também as habilidades tecnológicas e midiáticas a fim de resolver problemas reais, e buscando os conhecimentos necessários para os desafios que se apresentam. Prensky argumenta que podemos engajar as crianças, desde pequenas, em projetos com impacto real e mensurável em suas comunidades.

Da mesma forma, pesquisadores renomados de educação midiática e cultura digital, como Henry Jenkins [6] e Renee Hobbs [7], apontam que o desenvolvimento de um olhar crítico e criativo para o ambiente midiático é o caminho para a participação cidadã. A cultura da participação, segundo esses autores, permite aos jovens explorar suas identidades e locais de pertencimento na sociedade, assim como engajar-se com causas reais e imaginar novos futuros. Incentivar a chamada “criatividade crítica” [8] dá sentido ao uso de tecnologia nas práticas escolares, direcionando-a para a participação positiva na sociedade através da criação, remix e compartilhamento de conteúdo.

Quando permitimos o uso das tecnologias criativas — programação, fabricação e criação de mídias — de forma regular e dentro do contexto das disciplinas curriculares, possibilitamos a sua mobilização para a resolução de problemas e promoção de uma sociedade melhor. Seja através da criação de intervenções, aplicativos ou artefatos, ou ainda através da criação de campanhas, material educativo ou narrativas em multimídia, os alunos podem demonstrar a compreensão significativa dos conteúdos e oferecer aplicações reais para o seu conhecimento.

Quais os impactos da tecnologia que usamos ?

A evolução tecnológica provoca mudanças significativas de comportamento. Textos digitais, por exemplo, comportam novas possibilidades de leitura e escrita, que por sua vez mobilizam novas formas de interação. É o caso do remix e da escrita colaborativa, conteúdos interativos ou imersivos, e até conteúdos fabricados por inteligências artificiais. A ação dos algoritmos afeta a personalização de conteúdos, e esta, a nossa compreensão da realidade. No ambiente escolar, no entanto, a prática da compreensão crítica das mídias ainda parece ter um foco quase exclusivo na instrução para pesquisar e avaliar a credibilidade do conteúdo baseado em texto, sem prestar atenção suficiente ao impacto das tecnologias em rápido desenvolvimento, que determinam tanto a natureza dos textos que lemos quanto o que de fato é oferecido para nosso consumo e interação.

Além da natureza evolutiva do texto, os novos letramentos precisam incluir também a prática de olhar mais atentamente para como a tecnologia molda nossos hábitos e comportamentos. Se uma plataforma restringe os tipos de participação que podemos ter ou amplifica o conteúdo negativo, ou se as inteligências artificiais reproduzem nossos preconceitos existentes, isso também deve estar sujeito à nossa análise crítica — e às nossas intervenções.

O estágio mais avançado da fluência digital parte de um entendimento crítico das próprias ferramentas e ambientes digitais que utilizamos para a construção de alternativas. Depois de entender criticamente a produção de mídia, o próximo passo é que os jovens questionem o design e os pressupostos por trás das tecnologias existentes, projetando seus espaços digitais do futuro.

É fato que a crescente digitalização da sociedade pode ampliar as desigualdades. Mas é verdade, também, que cada nova evolução das tecnologias de informação e comunicação traz em si a possibilidade de apropriação por atores e territórios antes excluídos, com vistas a enfrentar injustiças sistêmicas. Pensem, por exemplo, nos mapas colaborativos que denunciam áreas de violência policial, ou ainda os que identificam ruas e negócios e apoiam o comércio em locais não mapeados pelas tecnologias oficiais.

Frente às transformações vertiginosas no ambiente digital, e nossa dependência cada vez maior dele, a expressão “o meio é a mensagem”, de Marshall McLuhan, nunca foi tão atual. Precisamos ressignificar nosso olhar para a tecnologia, entendendo seu papel nas construções sociais. É hora de abandonarmos de vez a noção de tecnologia como ferramenta em favor de uma postura mais ativa, reflexiva e questionadora — e, por que não, criativa — frente aos ambientes digitais.

[1] ‘Nativos digitais’ não sabem buscar conhecimento na internet, diz OCDE — BBC News Brasil

[2] Quase metade da geração Z troca pesquisa no Google por TikTok e Instagram — Época Negócios | Tecnologia

[3] Câmara aprova projeto que cria política nacional de educação digital — G1

[4] EducaMídia: Habilidades da educação midiática

[5] PRENSKY, Mark. Educação para um mundo melhor: Como estimular o poder das crianças e jovens do século XXI. São Paulo: Panda Educação, 2021.

[6] JENKINS, Henry; SHRESTHOVA, Sangita; By Any Media Necessary: The New Youth Activism. New York University Press, 2018.

[7] HOBBS, Renee. Media Literacy in Action: Questioning the Media. Rowman & Littlefield Publishers, 2021

[8] BURVALL, Amy; RYDER, Dan. Intention: Critical Creativity in the Classroom. Blend Education, 2019.

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Designer, educator, Google Innovator. Coordinator of EducaMídia. Exploring design, media and technology in education, and empowering youth in the digital age.

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Mariana Ochs

Designer, educator, Google Innovator. Coordinator of EducaMídia. Exploring design, media and technology in education, and empowering youth in the digital age.